sábado, 19 de abril de 2014

TV X Futebol

O Futebol e o Carnaval são os fenômenos culturais que melhor revelam a alma brasileira. E, como manifestações em que a beleza visual é empolgante, é natural que atraiam o interesse da TV. Esse interesse tem, entretanto, efeitos distintos. No Carnaval, canto e dança são expressões em busca de plateia. A TV atende a essa busca, cobrando em troca uma valorização das fantasias e alegorias. Encontrando quem pague pelos maiores custos envolvidos, as escolas de samba incorporaram com satisfação a opulência aos seus desfiles.
Já para o futebol brasileiro, a influência da TV tem sido apenas deletéria. Enquanto no desfile das escolas de samba, o resultado final é a combinação arbitrária das preferências subjetivas dos jurados que cada pessoa se sente à vontade para corrigir, o resultado do jogo de futebol é a verdade cuja descoberta fundamenta todo o interesse dos atletas tanto quanto dos espectadores. A beleza do futebol está na inteligência em dissimular os próximos movimentos e a vontade de chegar ao gol. O Brasil tem sido espetacular no futebol porque, nos nossos atletas, a habilidade nos movimentos ofensivos e a solidariedade nos defensivos surpreende o mundo. São qualidades de um povo que fazem do futebol brasileiro algo a ser visto com admiração.
Mas é preciso educar-se para apreciar o futebol. É fácil trazer as dezenas de milhares que lotam os estádios para diante da televisão, mas é difícil conquistar os milhões de espectadores que os patrocinadores dos programas de televisão exigem.
Para tornar o futebol mais rentável, a TV voltou-se para a emoção da torcida. O drible que se revela inconsequente passou a ser profligado. Do mesmo modo o recuo do atacante. Para a TV o que faz sentido é o prazer da vitória e a decepção do empate e da derrota. Por isso, importamos dos países que o Brasil derrotava em campo, os três pontos por vitória, o rebaixamento de mais de dois clubes, as brigas de torcidas...
Para a TV, o futebol tem de ser uma novela. A cada capítulo a trama evolui e ao final do ano chega o final feliz. A solução que a TV Globo encontra para preencher as suas cotas de audiência é tornar o mais querido sempre mais vencedor e, assim, cada vez mais popular. Para seus canais a cabo, passa a desenvolver o interesse das cidades sem clubes de tradição nacional em ver os clubes locais misturados aos grandes clubes do país e quiçá do mundo.
A pressão sobre os juízes para que ganhe o time da casa é tratada pela TV como ingrediente maior do espetáculo e passa a ser acompanhada de uma pressão maior, a dos comentaristas de arbitragem. A palavra do comentarista de arbitragem não pode ser questionada. Todos os programas do dia seguinte e os jornais da cadeia a repetem. Imagens são falsificadas e medições são fabricadas para confirmá-la. E se o comentarista de arbitragem manifestar opinião contrária ao interesse do patrão será demitido...

A esperança é que dê certo o chip na bola para confirmar a passagem da linha de gol e que seja logo substituído o bandeirinha pela revisão eletrônica das situações de impedimento. Senão, os juízes, reféns da crítica da TV, estarão cada vez mais decidindo os jogos a favor dos favoritos dela. E o futebol brasileiro cada vez mais sem graça...

3 comentários:

  1. Eu já tinha percebido que havia algo de errado, tanto é que prefiro assistir pela tv com som do rádio, mas não tinha percebido o que era... obrigado. Estou plenamente de acordo contigo.
    Confesso apenas não ter entendido o que é "profligado"....
    Abç,
    Ricardo

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    1. Caro Ricardo
      A "deletéria"é que eu achei que você ia gostar mais!
      Abração
      Annibal

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  2. Caro Ricardo
    A "deletéria"é que eu achei que você ia gostar mais!
    Abração
    Annibal

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