O Futebol e o Carnaval são os fenômenos culturais que melhor
revelam a alma brasileira. E, como manifestações em que a beleza visual é
empolgante, é natural que atraiam o interesse da TV. Esse interesse tem,
entretanto, efeitos distintos. No Carnaval, canto e dança são expressões em
busca de plateia. A TV atende a essa busca, cobrando em troca uma valorização
das fantasias e alegorias. Encontrando quem pague pelos maiores custos
envolvidos, as escolas de samba incorporaram com satisfação a opulência aos seus
desfiles.
Já para o futebol brasileiro, a influência da TV tem sido apenas
deletéria. Enquanto no desfile das escolas de samba, o resultado final é a
combinação arbitrária das preferências subjetivas dos jurados que cada pessoa
se sente à vontade para corrigir, o resultado do jogo de futebol é a verdade
cuja descoberta fundamenta todo o interesse dos atletas tanto quanto dos espectadores.
A beleza do futebol está na inteligência em dissimular os próximos movimentos e
a vontade de chegar ao gol. O Brasil tem sido espetacular no futebol porque,
nos nossos atletas, a habilidade nos movimentos ofensivos e a solidariedade nos
defensivos surpreende o mundo. São qualidades de um povo que fazem do futebol
brasileiro algo a ser visto com admiração.
Mas é preciso educar-se para apreciar o futebol. É fácil
trazer as dezenas de milhares que lotam os estádios para diante da televisão,
mas é difícil conquistar os milhões de espectadores que os patrocinadores dos
programas de televisão exigem.
Para tornar o futebol mais rentável, a TV voltou-se para a
emoção da torcida. O drible que se revela inconsequente passou a ser
profligado. Do mesmo modo o recuo do atacante. Para a TV o que faz sentido é o
prazer da vitória e a decepção do empate e da derrota. Por isso, importamos dos
países que o Brasil derrotava em campo, os três pontos por vitória, o
rebaixamento de mais de dois clubes, as brigas de torcidas...
Para a TV, o futebol tem de ser uma novela. A cada capítulo
a trama evolui e ao final do ano chega o final feliz. A solução que a TV Globo encontra
para preencher as suas cotas de audiência é tornar o mais querido sempre mais vencedor
e, assim, cada vez mais popular. Para seus canais a cabo, passa a desenvolver o
interesse das cidades sem clubes de tradição nacional em ver os clubes locais
misturados aos grandes clubes do país e quiçá do mundo.
A pressão sobre os juízes para que ganhe o time da casa é tratada
pela TV como ingrediente maior do espetáculo e passa a ser acompanhada de uma
pressão maior, a dos comentaristas de arbitragem. A palavra do comentarista de
arbitragem não pode ser questionada. Todos os programas do dia seguinte e os
jornais da cadeia a repetem. Imagens são falsificadas e medições são fabricadas
para confirmá-la. E se o comentarista de arbitragem manifestar opinião
contrária ao interesse do patrão será demitido...
A esperança é que dê certo o chip na bola para confirmar a
passagem da linha de gol e que seja logo substituído o bandeirinha pela revisão
eletrônica das situações de impedimento. Senão, os juízes, reféns da crítica da
TV, estarão cada vez mais decidindo os jogos a favor dos favoritos dela. E o
futebol brasileiro cada vez mais sem graça...