Algumas pessoas atiraram cabeças
de nego e acenderam sinalizadores no campo do Vasco. Fora do estádio, um jovem torcedor
do Vasco foi morto com um tiro no peito. Motivos levantados: 1) arbitragem errou
mais uma vez contra o Vasco; 2) criação de tumulto para exploração na campanha
eleitoral; 3) idiotice de baderneiros, que os há em todas as torcidas.
Tenho uma quarta explicação, menos
óbvia. Que extraio da reação que observo: ninguém pede a apuração dos fatos, a
identificação dos criminosos, a aplicação objetiva da justiça... A CBF proíbe presença
da torcida do Vasco no jogo contra o Santos! O Procurador apresenta pedido de pena
máxima para o Estádio de São Januário, com interdição por 25 partidas!
Minha explicação não acusa
ninguém, senão toda a espécie humana. Nem árbitros, nem cartolas, nem
policiais, nem comissários, por mais que cada um deles possa mesmo sentir-se
culpado... No inconsciente coletivo, vou buscar mais fundo a origem desse ânimo
em que cada um insere suas motivações próprias para fazer do Vasco o bode
expiatório de que o país em guerra necessita.
O Vasco é o clube dos
comerciantes portugueses a que a Imprensa no Brasil não dispensava tratamento mais
justo que a da Alemanha dispensava aos judeus antes da segunda guerra. Finda a
guerra, diluída a relação de outros clubes com colônias estrangeiras, restou o
Vasco, que a imprensa esportiva da capital da república passou a tratar como o
gigante a ser derrubado pelo Flamengo. No governo militar, é conhecido o
envolvimento da imprensa nas articulações para atrair a simpatia para o general presidente flamenguista que chegaram às “papeletas amarelas”...
Isso dura até hoje. Na
arquibancada e nas cadeiras sociais de São Januário, velhos portugueses e seus
descendentes ainda exibem seu orgulho pelo patrimônio legado pela colônia à
História do Brasil. Mas, não podem ser distinguidos em um mar de “negros, pardos, caixeiros e operários”.
O amor ao Vasco é hoje o fruto das campanhas de seus times heroicos. Isto não
impede que o preconceito contra os estrangeiros ainda seja explorado.
As vitórias do futebol do Vasco e
a tradição de unir todos os oprimidos com olhos na única meta de ser o campeão
fazem o Vasco resistir a tudo como um bastião do espírito esportivo
menosprezado. Cada vez que o Vasco ganha, a corrupção em que apodrecem nossas elites, que não são
diferentes das de 1923, vê-se humilhada . Responde
sempre que pode.
Pensavam que o Vasco só ganhava
no seu Caldeirão e, quando surgiu a oportunidade, em 48 horas, se apressaram a
fechá-lo. 48 horas depois o Vasco ganhou de 4 a 1 fora de casa. Coisas do
futebol...
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